Um olhar sobre a Semana da Biblioterapia, por Suyan de Melo

“Recentemente acompanhei pelo Instagram a jornada de biblioterapia proposta pela especialista Carla Souza, em sua página @dosesdebiblioterapia. O conteúdo ficou disponível, sorte do público. Foram tantas referências trazidas, dos livros, e também das relações, vivas, ativas, de modos de olhar, de quem no presente se dedica a essa atividade, ainda não tão conhecida entre nós, mas que vai se disseminando quanto ao
seu atual conceito/compreensão em termos acadêmicos, pode-se dizer. Pois, como a própria Carla lembrou, não é de hoje que as histórias permeiam a vida humana.

Isso vai muito além de estarem em livros, ou no cinema, ou no teatro; vai até bem além de estarem pra cá ou pra lá da linha de surgimento daquilo que chamamos de escrita. As histórias permeiam o próprio dinamismo de viver e se relacionar, com os outros, com o ambiente. Foi muito conteúdo de qualidade, incluindo entrevistas ao vivo, que trouxeram não só definições e embasamentos teóricos, mas também o compartilhamento de práticas e histórias de vida de suas convidadas, Karin Vanelli (@ditoefeitoliterario), Felícia Fleck (@historiasdafeliciafleck), Fabíola Barcelos (@passarinhos_no_sotao) e Ivone Lopes (@ivone.lopes_psi), e da relação de cada uma com a dita biblioterapia. Carla ainda presenteou o público com uma rápida prática de biblioterapia. E o fez muito bem acompanhada: com um trecho da crônica “Para quem será?”, de Rubem Alves:


“Cada pessoa tem um tesouro que é único, só seu. No meu tesouro há uma
quantidade enorme de coisas absolutamente inúteis, que não têm nenhum
valor de mercado. Livros usados, alguns, os que mais amo, já caindo aos
pedaços (…). Quadros. (…) Livros de poesia, literatura, arte, jardins. Um
peso de papel de vidro verde-claro. Fotografias. Cartas. Memórias. Parece
estranho, mas o fato é que memórias são também objetos que acumulamos.
Estão guardadas no nosso tesouro. Há umas memórias das quais me livraria
com prazer. Seria preciso inventar uma técnica de faxina de memórias: uma vez por ano, limpeza das memórias que fazem sofrer. Mas há as memórias que amo. Curioso: nenhuma delas é sobre acontecimentos importantes. São memórias-brinquedo: fico brincando com elas. E isso me faz feliz. (…) uma infinidade de cenas, como se fossem fotografias, que ficaram gravadas na minha memória.”


Feita a leitura, ela possibilitou que o público dividisse, ao vivo, algumas de suas melhores memórias-brinquedo. Até pra mim, que não acompanhei essa dinâmica ao vivo, e sim dois dias depois, foi como um portal que leva de volta a riquezas feitas dos tesouros que só cabem a cada um, em suas memórias-brinquedo. A minha melhor de todas é feita só de palavras: pegava uma folha em branco de caderno pequeno e tinha de preenchê-la
inteiramente com uma única pergunta, que sempre começava com “você sabia que” e sempre resultava inteiramente sem-pé-nem-cabeça, o que me divertia horrores, lá pelos sete anos de vida em que eu descobria juntar ao próprio gosto as palavras escritas). Quando a sessão da Carla acabou, lentamente abri os olhos e reespiei meu entorno tão conhecido. Sorrindo, muito mais pra dentro que pra fora, percebi que tudo ali estava me
sendo indiscutivelmente uma outra coisa.”

Por Suyan de Melo (suyanfaria@gmail.com)

Texto publicado originalmente no Jornal Correio de Laguna/SC em 11/07/2020 e gentilmente cedido pela autora.

Os encontros da Semana da Biblioterapia estão disponíveis no Canal do Doses de Biblioterapia no Youtube. Clique abaixo e confira:

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